

um pequeno chalé em meio aos carvalhos, escondido na parte mais profunda da floresta, habitava uma mulher descendente dos Tuatha de Danann, os deuses e seus filhos, uma bruxa, da terra veio seu nome, Eartha. A antiga sacerdotisa da Deusa, vinda de Avalon, encontrara refúgio em sua humilde residência cercada pela natureza e tudo que era mais sagrado, seus bosques, os rios, a fauna, a flora e seus espíritos que protegiam-os.
Longe do mal que assolava outros de seu povo, distante da perseguição dos cristãos, num dia tempestuoso, a jovem mulher entrava em trabalho de parto em sua casa. Mas assim como havia vindo ao mundo, no ar livre, em pleno contato com a natureza, desejava que sua prole tivesse a mesma vinda ao mundo. A bruxa de cabelos negros como a noite mais escura caminhou lentamente para a porta de madeira, o ranger rotineiro ao ser aberta se misturou e sumiu perante os som pluviais.Eartha caminhou dificultosamente entre as árvores, usando suas folhas e galhos como cobertura para a chuva que caia impiedosa no solo, os pés descalços enlameados pela terra úmida, o petricor invadia-lhe as narinas. Os trovões eram como as batidas raivosas de uma música, a sagrada canção da natureza. A jovem caminhou até um pequeno riacho, lá estava o seu pequeno esconderijo, um pequeno espaço nas raízes de uma grande árvore, tendo uma grande rocha como seu teto e proteção contra as gotas d'água. Sentou-se às pressas dentro da pequena cavidade na terra, sentindo as contrações do parto, a dor da dádiva fertilidade, sentia-se cansada pelo esforço que fizera para chegar até lá, mas tinha um trabalho a fazer.
Não foi um parto fácil para ela, sozinha, em meio a uma tempestade, sem nenhuma ajuda, apenas acompanhada da presença da natureza e Dela. Mas apesar das dificuldades e de seu imenso esforço para dar à luz, um bebê saudável, uma menina, nasceu de seu ventre. E Eartha não poderia sentir alívio maior ao segurá-la em seus braços com vida, aquele pequeno e frágil ser que nascera de si mesma, todo ensanguentado e indefeso e um pouco choroso.

O bebê foi amamentado, enquanto a jovem se recuperava, ofegante e totalmente encharcada pela chuva e suor, e assim que ele adormeceu, a bruxa levantou-se, apoiando-se nas raízes fortes e pedras ásperas, caminhou lentamente e com dificuldade até o pequeno riacho e se agachou a sua margem. Era hora de apresentá-la a Ela. Com cuidado, ela estendeu os braços, mostrando a pequena aos céus e as árvores, ao rio e aos espíritos. A bebê chorosa despertou, incomodada com os pingos fortes em seu pequeno corpo, mas ainda assim, Eartha continuou.— Neste dia fui abençoada com uma das maiores dádivas que poderia me presentear. Neste dia tempestuoso e agitado, onde o caos predomina o céu e amedronta os seres terrenos. Nascida do caos, esta criança nele se tornará, e por isso eu a nomeio Erys, deusa da discórdia e do caos. Que Danu reconheça seu nascimento. — A mulher ditou em alto e bom som, o qual nem mesmo a chuva foi capaz de abafar e o corpo da criança foi banhado nas águas do rio, banhado pelas águas de um lugar sagrado, nascida da floresta. E lá ela seria criada.

mágicas, pelo grande poder que sua mãe havia descoberto que ela possuía, longe de qualquer sociedade ou mal que pudessem lhe causar. Até o fatídico dia da caçada. Não se sabem os reais motivos para os acontecimentos daquele dia, no entanto os cristãos e seus padres incendiaram grande parte da floresta atrás do Povo das Fadas que encontrava nela um esconderijo. A criança de apenas cinco anos se lembraria daquele dia até o resto de seus dias. As cinzas queimando o pulmão, os gritos agonizantes das fadas e dos espíritos em desespero.Por sorte, Erys e Eartha escaparam da floresta sem muitos ferimentos e encontraram abrigo numa vila relativamente distante dali, onde fingiram levar uma vida comum de uma viúva e sua filha que tiveram que encarar a morte de seu querido marido e pai. E a pequena quase acreditou na mentira da morte de seu pai, afinal sua mãe nunca falava sobre ele ou seu paradeiro, a pequena Le Fay somente sabia que ele estava vivo, em algum lugar.Os dias se tornaram semanas, e as semanas se tornaram meses. A aldeia já havia se acostumado com a presença da curandeira e parteira misteriosa e sua filha de cabeça quente, mas isso não significava que realmente apreciavam-nas ali. Suspeitavam da mãe ser uma bruxa, e detestavam a presença de sua filha briguenta, que sempre arranjava briga com as outras crianças do local, era longe de ser o local perfeito, ou como o pequeno chalé no bosque, mas era o que tinham, e era seguro. Num dia pacato de verão, porém, dois cavaleiros da Távola Redonda vieram a aldeia com a premissa de encontrarem ladrões e saqueadores que estavam pela região. E foi neste dia que Eartha reencontrou sua antiga paixão, Sir Mordred, o pai de Erys. Fora uma cena esquisita e até cômica de se imaginar, a garota estava em choque por finalmente conhecer seu pai, e como um gato arisco, desconfiou do homem desde o primeiro momento, no entanto, o cavaleiro, admirado com o jeito da pequena e sua aparência são semelhante à si, não desistiu até ganhar a confiança e afeto de Erys.Enquanto os dois cavaleiros continuavam sua busca ao redor da aldeia, eles permaneceram lá, e a criança pôde experienciar pela primeira vez em sua vida, como era ter um pai, como era ter uma família completa. E nesse meio tempo, a garota se afeiçoou ao pai e se admirou de sua profissão, jurando que um dia se tornaria uma cavaleira tão valente quanto ele.


— Você é uma garota, pequena. Deveria sonhar com um bom casamento e ser uma dama respeitada. — Mordred sorriu levemente, tentando convencê-la, nenhum pai gostaria que sua filha pudesse morrer num campo de batalha.— E garotas não podem ser cavaleiros também? Eu sou forte. Eu sou sua filha.— Sim. Por isso é tão parecida comigo. E teimosa. — O homem afagou os cabelos negros da menina.— Vamos! Me ensine! Eu quero ser igual você. — Gritou, Erys, os olhos azuis, idênticos aos de seu pai, exalavam uma confiança ardente e determinação feroz.E nesse momento ele soube que de um jeito ou de outro, ela estava destinada a isso, destinada a grandeza. E assim, ele passou a ensiná-la a lutar com espadas e na arte da arquearia.Eles foram uma família feliz até Mordred concluir seu objetivo e ter que retornar à corte real de Camelot, mas não sem antes prometer que retornaria, por ela, para vê-la. E assim, Erys esperou. Os anos se passaram e ele ia visitá-la quando podia, ensinando-a mais a manusear uma espada, um arco e a como cavalgar. E nos meses em que o esperava retornar, Erys treinava sozinha todos os dias, para se aperfeiçoar, e a noite aprendia mais sobre a magia e seus poderes com sua mãe, longe dos olhares curiosos dos aldeões.Quando tinha oito anos, uma grande guerra civil culminou por toda a Britânia, liderada por seu pai, o bastardo do rei Arthur. Ele havia prometido retornar com vida da batalha e fazê-la sua legítima herdeira, no entanto, os deuses não foram piedosos com a jovem. No confronto final entre o rei Pendragon e o cavaleiro da Traição, Mordred foi morto por Arthur, seu próprio pai e soberano, enquanto a pequena Pendragon se aproximava do campo ao longe para ver a vitória de seu pai, mas esta guerra não teve vitoriosos. E o rei, mortalmente ferido pelo cavaleiro, morreu pouco tempo depois do fim da batalha, e sua espada sagrada, Excalibur, se perdeu em meio ao lago de Avalon e suas brumas, guardado pela Dama do Lago, Nimue.Ao chegar ao campo de batalha, Erys encontrou o corpo sem vida de seu pai, esfriando em seus braços, e então jurou a si mesma que o vingaria. Que faria todo e qualquer um que houvesse contribuído para a sua morte pagar por seus atos. E a coroa seria sua.


o retornar para sua aldeia, sua mãe sabia que havia algo de diferente em sua filha, um brilho cruel em seu olhar que nunca havia visto antes, não de forma tão furiosa e assustadora. O olhar da jovem causava arrepios na espinha de sua mãe, que temia pelo seu futuro. Mas os anos se passaram sem muitas conturbações, apesar de Eartha ficar mais fraca a cada dia que se passava e sua filha começar a realizar todas as atividades da casa, enquanto lutava para curar sua mãe da doença desco-
nhecida. A pequena bruxa fez de tudo para salvá-la, mas Eartha não resistiu a doença, e aos seus doze anos, a Le Fay foi expulsa de sua aldeia por não ter mais utilidade. Sozinha e sem moradia, e sem chances de recorrer a ajuda de sua avó paterna, Morgan Le Fay, ela saiu vagando pelo país, de florestas a aldeias, em busca de abrigo.Até que finalmente foi aceita em uma guilda de mercenários para trabalhar na limpeza do local. Os homens a maltratavam-na e a olhavam como um pedaço de carne, mas evitavam tocá-la com segundas intenções, era um ambiente hostil, e com isso, Erys aprendeu a deixar todos os seus sentimentos de lado, para se tornar o puro caos, um misto de raiva e revolta, se para sobreviver teria que ser pior que aqueles que a cercavam, ela seria.Com auxílio de Egbert, um dos homens da guilda, — que acabou flagrando-a ao treinar sua magia e combate — Erys aprimorou suas habilidades de luta e de caça graças ao abrigo fornecido por ele e sua filha, Æthelburh, em sua pequena residência, enquanto planejava mais uma vingança. No entanto, o destino novamente parecia testá-la. Meses após o início do treinamento, Egbert tentou matá-la. E ela, enfurecida e sem escolha, o matou para sobreviver. Apesar do fim trágico deste capítulo, Erys aprendeu as lições mais importantes de sua vida: não confiar nem mesmo naqueles que estendem a mão e matar.
Num novo lugar, não demorou muito para que suas habilidades em combate fossem descobertas, o que a garantiu um posto como mercenária em uma nova guilda, com outros homens desprezíveis. Ela começou de baixo, escoltando damas de casas nobres pelas ruas e cobrando dinheiro de devedores. Conforme o tempo passava, ela foi sendo requisitada para trabalhos mais pesados e provou seu real valor neles. Assassinato, tortura, sequestro, roubo, furto. Ela não se importava em sujar as mãos de sangue por um pouco de dinheiro e uma boa bebida.E continuou saqueando, roubando e matando, num ciclo vicioso, até ouvir sobre o novo recrutamento de soldados para a guarda real. Era uma oportunidade e tanto se infiltrar na guarda do palácio, apesar das chances serem mínimas por ser mulher, sua habilidade se equiparava a um soldado da elite, e se o príncipe herdeiro fosse esperto, ou tolo, o bastante, reconheceria seu valor. Mas caso não, ela tinha outros planos de como se infiltrar. E assim foi feito. Ela era oficialmente um membro da guarda real.

Durante sua estadia no palácio como guarda, Erys sabia que para usurpar o trono, não bastava apenas tomá-lo, ela teria que governar e para isso precisava de conhecimento. Com suas habilidades de escrita e leitura um pouco desgastadas pelo grande tempo que ficou praticando-as raramente, apenas quando o necessário, a jovem invadia a biblioteca real no meio da noite, forçando-se a ler e escrever, a reaprender e melhorar sua habilidade, bem como ler o que fosse de seu interesse e pudesse ajudá-la a governar um reino, ou tomá-lo para si. E enquanto aproveitava dos luxos da corte, das damas nobres que queriam se aventurar por uma noite com ela, das bebidas e treinava arduamente como cavaleira, ela secretamente planejava sua ascensão ao trono.Os fios do destino nunca pareceram tão bem alinhados, estava tudo indo de acordo com o seu plano, além de conseguir o apoio de sua avó, Morgan Le Fay, pelas sombras, para usurpar o trono que era seu por direito. Entretanto, num dia, pessoas começaram a se aventurar nas florestas e desaparecem sem deixar rastros, e nunca mais retornavam. Alguns chamam isso de o fim dos tempos, outros diziam que um tipo de maldição assolava estas terras. Mas o que quer que fosse, era claro que não tinha intenções de desaparecer cedo.



maldição começou a se espalhar e chegou a fortaleza de Camelot, ao menos, estava mais próxima do que nunca, rumores de uma cidade protegida contra este mal se espalharam entre o povo. Sem opções do que fazer, Erys decidiu seguir o que os rumores diziam, tempo depois do covarde príncipe herdeiro partir e deixar seus súditos para morrer, e partiu em busca da cidade de Alvadia, a última cidade que resistia com sucesso à maldição. E com sorte, a Pendragon encontrou-a e fez dela seu novo lar temporariamente, até que conseguissem se livrar do mal que ficava à espreita atrás dos muros da cidade.E assim os meses em que se abrigou em Alvadia se passaram, tempo no qual a maldição se espalhou ainda mais, e ela e os outros sobreviventes se aliaram para dar um fim na praga que os assolava.Com a ajuda de uma senhora e seu pássaro falante, descobriram sobre o livro qual continha a maldição lançada sobre o mundo. E, dentro da biblioteca da cidade, eles encontraram o tal livro, apesar da baixa que sofreram. Erys almejando usá-lo para uso próprio o levou consigo. Ao abrir o livro com seus aliados, alguns conhecidos e amigos, sendo eles: Diane, filha de Breu, Yanik e Ivan, filhos de Malévola, Marie, filha de Cruella e Malena, filha do boto-cor-de-rosa; eles encontraram o feitiço que quebraria a maldição, todos trabalhariam para encontrar os ingredientes necessários, era isso que deveria ser feito, não?Infelizmente o destino tinha outros planos preparados para Alvadia e naquela mesma noite o livro sumiu na frente de Erys e seus aliados. Poucas noites após o ocorrido, porém, ele reapareceu na casa da cavaleira, um livro vivo e, acima de tudo, assustado. A dona da maldição que assolava a terra decidiu revelar-se para ninguém menos que a Pendragon, que temendo por sua vida e com uma proposta interessante a considerar, fez um acordo com Delilah, filha de Odete.A partir desse momento, ela ajudou seus amigos e os outros sobreviventes em suas missões para conseguir os ingredientes restantes para o feitiço, fingindo estar plenamente ao seu lado, enquanto continuava atrás de seu objetivo, tentando assassinar o herdeiro do trono, até que finalmente agiu pelas sombras e roubou um dos ingredientes do ritual. O qual escondeu no local mais seguro que teria distante deles, sua terra natal, Avalon. A flor foi guardada por Morgana, até seus planos serem estragados por uma missão com a finalidade de recuperar a flor, que acabou voltando para suas mãos novamente.
Com a Excalibur sob sua posse, após conseguí-la em Avalon, e com a flor segura consigo, reuniu os moradores de Camelot refugiados na mansão real onde o "usurpador" se hospedava e com a Espada da Seleção em mãos o matou na frente de todos, reclamando o trono de toda a Britânia para si.Chegado o último dia do prazo no qual conseguiriam aniquilar a maldição de uma vez por todas, Erys revelou sua traição na frente de todos e lutou contra seus amigos, até seu confronto com Yanik, no qual deliberadamente poupou sua vida e mirou seu último golpe no livro amaldiçoado, destruindo-o para sempre. A Pendragon não tinha certeza do porquê fez o que fez, pois essa decisão ocasionou em sua perda na luta e no fim da maldição, mas no fundo ela sabia que era melhor assim e que se não fosse por aquilo, ela morria junto com todos os outros, e o reino que lutou para conquistar, não passaria de cinzas.Ao final de tudo, apesar de sua traição, Erys não foi morta, mas ganhou uma segunda chance de seus antigos amigos e com isso partiu com os sobreviventes de seu reino de volta para Camelot, com o coração pesado e quebrado com o arrependimento por perder a primeira mulher que amou por conta de suas próprias ações. A princesa herdeira nunca se esqueceria de Jieling, e torcia para um dia ser perdoada, mas não ficaria se remoendo por isso, afinal finalmente tinha tudo o que desejou e lutaria por isso.Meses após deixar Alvadia, com o reino melhor restabelecido, chegou o momento de sua coroação oficial como monarca e governante. Ela convidou seus amigos para que vissem o que ela havia se tornado, uma verdadeira rainha, seu objetivo havia sido alcançado. Uma pena que quem seu coração mais almejava ver, ainda não tinha a perdoado, mas sua vida seguiu. Ela era uma rainha, e não abriria mão de seu poder, e seu nome seguiria nos livros de história como a última Pendragon.





